Uma Face da Liberdade

Janeiro 6, 2009

“One can give nothing whatever without giving oneself – that is to say, risking oneself. If one cannot risk oneself, then one is simply incapable of giving. And, after all, one can give freedom only by setting someone free.”

“Ninguém pode dar nada sem dar a si mesmo – o que significa dizer, arriscar a si mesmo. Se não arriscas a ti mesmo, então és simplesmente incapaz de dar. E, portanto, somente podes dar liberdade se tornares alguém livre.”

Do livro The Fire Next Time – James Baldwin

A frase acima foi escrita no contexto do racismo dos EUA dos anos 70, e atenta para os atos de aparente inclusão dos negros na sociedade americana, mas todos falsos. Falsos? Sim, porque a maioria dessas pessoas brancas não se colocavam em risco ao dar seu dito “apoio” (daí surge o tesmo tokenism). Porém, gostaria de fazer uma outra interpretação dessa frase, um tanto mais ocultista.

Dar algo a outrém é estabelecer uma conexão com a outra pessoa, assim como libertar alguém. Entretanto, a conexão que mais nos falta é a com nós mesmos! Sim, quando digo isso, quero dizer que a humanidade não está buscando entender um dos maiores ensinamentos deixados para nós: CONHECE-TE A TI MESMO.

Poucos querem correr o risco de se conhecerem, de se darem algo duradouro, e não passageiro como os apelos anímicos, carnais e passionais. As paixões são o cárcere humano. Causam felicidade instantânea, porém com ela vem a tristeza do término do prazer. O risco nisso tudo é descobrir que muitas das coisas que pensamos ou fazemos não nos leva para o caminho do BOM, BEM e BELO. Há um risco nisso tudo… o de descobrir que não se tem humildade suficiente para mudar e enfim, tornar-se LIVRE!

Não poderemos dar liberdade a ninguém sem antes sermos livres. O “setting someone free” da frase de Baldwin refere-se à propria pessoa que a lê: ao negro – que se encontra imobilizado e aprisionado em conceitos impostos a ele, e de alguma forma aceitos; ao branco – aprisionado à necessidade de subjugar outro pois só assim não se sente inferior; à humanidade num geral, presa em conceitos mesquinhos, imersos em passionalidade e irracionalidade.

corrente-quebrada

Desejo então, liberdade à todos!

PAX

Entry Filed under: Livros, Reflexões, ocultismo. Tags: , , , , , .

4 Comments Add your own

  • 1. Maurício  |  Janeiro 7, 2009 at 5:30 am

    Kariníssima!

    Antes de mais nada, preciso dizer isso, talvez mais uma vez: tu escreves muito bem! Apesar de que, linguisticamente falando, o correto é “Conhece-te a ti mesmo”, pois usaste segunda pessoa, então os dois pronomes devem estar na segunda pessoa. Mas isso é apenas detalhe e é completamente aceitável… Além do mais, teus textos me dão vontade de escrever!

    Sempre que ouço falar de liberdade, a primeira coisa que me vem à cabeça é a música da banda canadense Rush, entitulada Something For Nothing. Vou reservar o espaço abaixo para citá-la aqui, e não vou me dar ao luxo de traduzí-la, pois tu sabes inglês melhor que eu:

    Rush – Something For Nothing

    Waiting for the winds of change
    To sweep the clouds away
    Waiting for the rainbows’ end
    To cast its gold your way
    Countless ways
    You pass the days

    Waiting for someone to call
    And turn your world around
    Looking for an answer to
    The question you have found
    Looking for
    An open door

    You don’t get something for nothing
    You can’t have freedom for free
    You won’t get wise
    With the sleep still in your eyes
    No matter what your dreams might be

    What you own is your own kingdom
    What you do is your own glory
    What you love is your own power
    What you live is your own story

    In your head is the answer
    Let it guide you along
    Let your heart be the anchor
    And the beat of your own song

    Não achas que essa música versa exatamente sobre o que escreveste?

    Na minha humilde opinião, vocês falam sobre a mesma coisa: a estagnação dos acomodados, em que para se conseguir algo, é preciso agir. “You can’t have freedom for free”, diz tudo. Com certeza não é possível dar liberdade sem libertar alguém, e antes libertar a si mesmo. Mas como conseguir liberdade?

    Como está na música, não é possível ter liberdade de graça, mas qual o preço a pagar por algo tão abstrato?

    Filosoficamente falando, liberdade é algo inconcebível. Ou melhor, o que significa ser livre? Estar livre? – Ser livre é agir com autônomia, simplesmente “poder”. Sim, o mesmo “poder” do comentário passado, mas agora esse poder vem antes de todos e qualquer verbos de ação imaginável. Uma pessoa livre é alguém que pode, que faz o que quer, quando quer. “Ser livre” é poder, mas “estar livre” depende do que vem depois: estar livre de quê?

    Do ponto de vista sociológico, é impossível obter liberdade, já que a sociedade, seja ela qual for, estabelece regras, muitas vezes implícitas, para aqueles que querem fazer parte dela. Alguém que não quer fazer parte de uma sociedade, deu o primeiro passo rumo ao “ser livre”, distanciando-se do “estar livre”. Porém, se mais e mais pessoas decidirem não fazer parte de outras sociedades, o número de “aspirantes da liberdade” crescerá. Imagina: cada um fazendo o que quiser e quando quiser. Alguns chamam isso de anarquia, e usam como sinônimo de “bagunça”. Particularmente, eu discordo deste sinônimo. É possível que uma “sociedade”, se é que podemos chamar assim, já que as pessoas nela SÃO livres, dê certo, claro! Mas e quando alguém decide infringir a liberdade de outro, em meio a esse tumulto todo? Exatamente aqui começam a surgir as regras implícitas da vivência em sociedade: até que ponto vai a nossa liberdade, quando não estamos sozinhos? – entenda “sozinhos” como estar separado de tudo e de todos (sejam animais, plantas, pedras, etc).

    Quando estamos sozinhos (no sentido citado acima), é fácil responder à pergunta anterior: a liberdade é ilimitada. A partir do momento que nos colocamos na presença de alguém que é tão livre quanto nós, acaba por haver um conflito entre as liberdades ali existentes, fazendo com que emerjam regras implícitas de convivência, terminando numa sociedade. As pessoas dessa sociedade, ou seja, aquelas que aceitam essas regras implícitas, acabam por determinar outras regras, agora explícitas, para que as pessoas de tal sociedade tenham uma convivência ainda melhor. Aqueles que fazem parte da sociedade, mas por ventura venha a quebrar uma de suas regras é penalizado, para que apreenda que ali, aquilo é proibido.

    Entendes a contradição do ser livre em meio às sociedades? – o homem, como ser pensante, está condenado à prisão das suas próprias regras.

    Óbviamente, se eu dito as regras às quais quero seguir, eu sou livre. Isto é, eu posso escolher o que quero seguir. Quer dizer, eu tenho o poder de escolher as regras às quais quero seguir. Dessa maneira, eu também posso escolher qual o conjunto de regras mais me atrai, seguindo-o. Assim, eu sou livre, pois eu tenho autonomia para agir. De qualquer maneira, estarei fadado a seguir regras.

    Contudo, quando falamos da nossa mente, a discussão é outra. Até agora falei dos homens de carne e osso. O que quero dizer é que a mente não tem limites. O conhecimento não tem limites. O saber não tem limites. É neste ponto que podemos escolher ser livres ou ser prisioneiros. Temos a escolha sobre o que faremos com a nossa mente: podemos libertá-la, libertando nossos pensamentos, buscando o conhecimento e o saber, tentando atingir um nível onde há equilíbrio, ou podemos aprisioná-la nas regras mesquinhas da sociedade que fazemos parte, fazendo com que toda a graça da vida murche, fazendo os dias ficarem preto e branco, fazendo os sons desaparecerem, fazendo com que o Universo morra.

    Podemos escolher: ou ficamos parados e morremos pobres, ou nos libertamos e evoluimos.

    Abraços, minha amiga! Desculpe a empolgação do texto imenso!

    Responder
  • 2. karinasurya  |  Janeiro 7, 2009 at 2:53 pm

    Maurício!!!

    Já consertei o erro gramatical, obrigada pela dica! :)
    Com certeza seus comentários aqui no blog estão sendo maravilhosos, concordo com quase tudo que você tem escrito.

    Lendo sua resposta,me veio uma possível pergunta(bem maiêuica rs): como libertar a mente, se todo conhecimento é subjetivo e vem de seres humanos inseridos em regras e sociedades?

    Dentre as várias respostas possíveis, podemos dizer que o exercício de fazer, ter e saber muito, porém não ser possuído pelo que fazemos, temos e sabemos, é uma chave importantíssima para alcançarmos a liberdade.

    É o princípio ensinado num livro muito importante da cultura védica(hindu) chamado Bhagavad Gitâ: o desapego das ações e o desapego dos resultados das ações. O desapego e a incessante busca pelo Saber, aquele que é único e independe de sociedades, tempos ou Eras, são características principais dos LIVRE PENSADORES.

    No ocultismo, que tem como método de aprendizagem o estudo comparativo entre religiões e ciências, essa Sabedoria e Conhecimento é chamado de Ciência Iniciática das Idades. É o tronco único do qual tudo nas sociedades deriva.

    Daí poderíamos adentrar nos mistérios da cabala e seu estudo do significado ocultos dos números, dizendo que nessa “fórmula”, há 7 maneiras de se obter êxito, este que resultaria no equilíbrio de corpo, alma e espírito (3), tornando o homem em Homem (com H maiúsculo) Uno, em equilíbrio com a Divindade e o Universo.

    Esses números formam outro, o 137. De cabeça para baixo: LEI. E por que não dizer que Deus É essa Lei? A Lei da eterna busca pelo equilíbrio (karma) e da constante evolução (dharma)…

    Acho que agora eu que me empolguei rs

    Beijinhos! =*

    Responder
  • [...] Causam felicidade instantânea, porém com ela vem a tristeza do … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

    Responder
  • 4. Maurício  |  Janeiro 12, 2009 at 12:55 pm

    Primeiro, desculpa a demora pra responder…

    Concordo com o Bhagavad Gitâ nesse ponto. =)~

    De fato, o conhecimento é uma construção humana, através do estudo de modelos que se encaixam, ou não, com a natureza, ou com o objeto de estudo em questão. Se os modelos não se encaixam, acontece algo que também pode ser conhecido como Revolução Científica. Ou seja, velhas idéias são substituídas, revisadas, corrigidas ou até complementadas por novas idéias.

    Mas será que só porque os homens não são livres, o conhecimento produzido por eles também não o é?

    Como eu disse, o homem, como ser pensante, está condenado a seguir regras. Em qualquer nível. A mente é livre para viajar por todo tipo de conhecimento, mas também é livre para criar. Apesar de que ela não poderá criar nada que fuja da sua vivência e da sua capacidade física, ou real, ou melhor dizendo, não poderá criar nada que fuja de sua natureza.

    Já ouviste falar do livro O Mundo de Sofia? Nele, tem uma passagem sobre o filósofo Spinoza que eu gostaria de escrever aqui, mas são 4 páginas no livro, então acho que vou me prestar a falar com as minhas palavras o que está escrito lá.

    Primeiramente, Spinoza encherga tudo como se fosse uma unidade. Para ele tudo é natureza, ou uma manifestação da natureza. Sendo assim, os animais (incluindo os homens), as plantas e os objetos inanimados são apenas manifestações diferentes da unidade Natureza. Mas a natureza não seria nada se não houvesse suas manifestações. Com outras palavras, a natureza é suas manifestações, e nada mais.

    Para Spinoza, a natureza e deus são exatamente a mesma coisa. Metaforicamente, podemos, então, pensar que cada manifestação da natureza é um pedaço do corpo de Deus. Se tu, Karina, és um polegar de deus, por exemplo, tu és livre para se movimentar para os lados, para frente e para trás. Livre para se contrair e se esticar. Porém, não tens a liberdade de pular da mão de deus e sair correndo pela sala, pois isso não é da tua natureza, como polegar, da mesma forma que o teu dedo não pode pular da tua mão e sair correndo pela tua sala.

    De maneira mais objetiva, as manifestações da natureza, ou de deus, agem de acordo com sua natureza, ou com as leis da natureza (nesse sentido, será que as manifestações seriam livres?). Imagine um leão nas savanas africanas. Tu achas que ele optou por ser um animal predador? É por causa disso que ele ataca um antílope cansado? Será que ao invés disso ele poderia ter optado por ser um vegetariano? – Não, pois o leão vive de acordo com sua natureza.

    O mesmo pode ser dito para um homem, que também é natureza, portanto deve agir de acordo com as leis da natureza. Assim como a mente, também por ser natureza, não pode agir de maneira a contrariar a sua natureza.

    Mas como poderíamos ser livres, perante tudo isso?

    Tomando emprestado mais uma vez os dizeres do livro, imagine que duas árvores de mesma idade crescem num jardim. Uma se encontra num canto do jardim que recebe luz do Sol em abundância e que possui solo fértil e rico em nutrientes e água. A outra árvore cresce na sombra, sobre solo infértil. Qual das duas árvores dará mais frutos?

    Para Spinoza, a primeira árvore, que teve condições para desenvolver todo o seu potencial, ou seja, ela teve condições para dar frutos e se desenvolver plenamente. Esta árvore, então, é livre. Já a segunda árvore, que não tinha condições externas propícias para seu desenvolvimento, encontrou dificuldades em seu caminho, e acabou por ficar presa à infertilidade. Portanto, esta segunda não é livre.

    Porém, a primeira árvore é livre para viver plenamente de acordo com a sua natureza. O que quero dizer é que se ela for uma macieira, ela não poderá gerar uma ameixa ou um pêssego, apenas poderá produzir maçãs. O mesmo acontece com nós, humanos. Condições políticas, por exemplo, podem obstruir nossa evolução e nosso crescimenteo pessoal. Uma pressão exterior é capaz de nos tolher. Só quando podemos desenvolver livremente as possibilidades que nos são inerentes é que podemos viver como pessoas livres. Apesar disso, somos governados pelo nosso potencial interno e pelas circunstâncias exteriores, da mesma forma como a macieira no jardim (potencial interno: ser uma macieira, podendo apenas produzir maçãs; circunstâncias externas: estar sob solo fértil, ou infértil, receber, ou não, a luz do sol, etc).

    Um homem pode aspirar à liberdade de viver sem pressões exteriores, mas ele nunca chegará a ter “livre-arbítrio”. Nós não determinamos tudo o que acontece com o nosso próprio corpo (se vai crescer pêlos ou não, por exemplo), tampouco a mente pode ter pensamentos que não lhe são inerentes. Assim, o homem não possui uma mente livre, aprisionada num corpo, de certa forma, mecânico.

    Acho que por enquanto é “só”!

    Abraços!

    Responder

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Frase do momento

"Sofrei com a reprimenda, mas não vos revolteis contra ela. É sempre salutar ser atacado pelos maus, pois que os bons não atacam a ninguém."

Enquete:

Tópicos recentes

Principais mensagens

Categorias

Arte Filmes Livros Montanhismo Música - Music ocultismo Poesia Política Proatividade Reflexões Uncategorized Viagens

Arquivos

Amigos

Dicas

Sobre Mim

Blog Stats